Avaliação: Excelente
Parece mesmo que 2013 foi um ano de virada no cinema norte-americano. O fato de brilhantes filmes terem sido completamente ignorados na temporada de premiações (inclusive pelos seus estúdios nas campanhas por trás dos bastidores) talvez apenas reafirme isso. "Short Term 12" é um desses grandes filmes, longa que nasceu de um curta do mesmo diretor e roteirista Destin Cretton. Ainda que a sua estética naturalista não traga nada de novo, com um roteiro consistente em mãos, grandes atores/atuações, com destaque para Brie Larson e John Gallagher Jr., e uma direção segura deles, encontramos o novo em meio ao clássico do cinema independente.
Grace (Brie Larson) é responsável pelas instalações de uma unidade de tratamento de adolescentes problemáticos, alguns órfãos, outros abandonados pelos pais. Junto com o seu namorado Mason (John Gallagher Jr.) e outros funcionários, um novato inclusive, eles lidam com questões que uma sociedade consumista e alienada do outro há muito já abandonou. Eles devem educar os adolescentes quanto às regras de convivência, mas nunca podem cruzar as linhas destinadas a psicólogos ou professores. Na teoria, porque na prática o que vemos é um trabalho de paciência e amor que levanta questões semelhantes às do documentário "O Ser e o Ter" (2002), uma obra-prima recente do cinema francês. Daí a estética quase documental funcionar tão bem.
Grace, Mason e todos os funcionários são uma espécie de última resistência do processo social de coexistência baseado no respeito ao outro e no amor. Eles se importam e parecem ser os únicos e últimos que farão isso por aqueles adolescentes. As seqüências em que eles só podem seguir os internos que fogem para além do território da unidade e conversar, sem poderem encostar neles, configuram verdadeiros clímaxes de suspense, porque Cretton parece nos lembrar que o impulso do respeito e do cuidado é sempre o último, quando pode ser o primeiro. É nesse aspecto que o filme transcende sua condição de drama social e adquire contornos de uma poderosa obra política.
Grace e Mason são eles mesmos crianças abandonadas, como descobrimos mais a frente. E tal abandono é contínuo para Grace e não para Mason, o que faz com que o dilema que o casal enfrenta no filme seja ainda mais tocante em muitos aspectos: Mason concede todo o amor que pode, enquanto Grace carrega marcas de ódio que podem prejudicar tudo. A justiça social é lenta e o processo de cura e redenção dos personagens parece levantar o que o próprio diretor e roteirista enxerga como solução a algumas das muitas mazelas da sociedade estadunidense.
A geração que hoje tem de 20 a 30 anos seria, segundo ele, aquela que teria que lidar com as conseqüências de décadas de abandono e de ilusões que o american dream não mais conseguia financiar. Aqui, a crise financeira tem menos peso do que uma crise existencial de humanidade. Nesse aspecto, o jogo da cena final, que a princípio revela um mero truque de roteiro, tem um sentido simbólico muito maior. São eles que nas periferias do país ainda tentam, como guardiões, segurar a abandonada criança inconseqüente que a política pública interna norte-americana insiste em produzir.

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