Avaliação: Ótimo
Foram necessários ao menos os últimos 10 anos para que o cinema independente norte-americano finalmente entendesse que tal classificação não constituía um gênero por si só. Nascido como uma resposta ao status quo do sistema de estúdios em todas as décadas desde os anos 50, sempre foi, de fato, uma forma de filmar com pouco dinheiro e uma inventividade que parece nascida da revolta contra a não-representação pelo cinema mainstream, seja na forma ou nos temas. Essa concepção um tanto equivocada, que atingiu o seu auge em produções como "Juno" (2007) e "Pequena Miss Sunshine" (2006), foi construída em parte também por um dos primeiros filmes de David Gordon Green, "Prova de Amor" (All The Real Girls/2003).
Em "Joe", porém, não há espaço para paisagens e corpos em movimento embalados por trilhas de violão acústico. Ele parece retomar um rumo inciado em "Contra Corrente" (Undertow/2004): o trato através de uma estética de Faroeste de personagens brancos pobres, marginalizados, os "white trash" do sul dos EUA. Logo na cena de abertura, vemos o garoto Gary (o consistentemente excelente Tye Sheridan) explicando ao seu pai (o impressionante Gary Poulter, mendigo na vida real, e falecido, escalado para o papel por Green) a conduta errada que este adotou e o quanto ele não vai poder ajudá-lo. Nessa inversão, o tom do menino é paternal e a resposta do pai brutal. Ao garoto só resta seguir a linha do trem, para ele um impulso de vida e, para o pai numa brilhante seqüência posterior, uma compulsão destrutiva. Aqui já vemos o que parece ser o verdadeiro tom central da produção: o embate entre esse decadente mundo patriarcal, perdido em delusões por décadas, e a inevitável realidade para o filho, que necessita de trabalho para sobreviver e ajudar sua mãe e irmã apesar da violência do pai.
Essa possibilidade começa com uma troca de olhares entre Gary e Joe, interpretado por Nicholas Cage, longe de ser um meme e com um vigor e brilhantismo que não víamos desde que foi dirigido por Werner Herzog em "Vício Frenético" (The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans/2009). Essa troca de olhares resume o artifício central: o enxergar o outro e não mais um arquétipo de vida que parece enraizado naquela sociedade. Não à toa, em determinado momento, nos questionamos se Gary é Joe e se Joe é a versão mais velha do menino; ele parece bem menos interessado em salvar a mocinha em perigo, o que é mostrado com primor ao quase sempre estarem de costas um pro outro, do que em atingir a redenção olhando de frente a miséria do garoto.
Se o clímax é um tanto quanto esperamos, sem muitas surpresas, é porque não estamos num Thriller e, sim, num Faroeste. E, como nos grandes exemplares do gênero, "Joe" é uma dança da morte em que os personagens presos nos seus universos sociais morrerão e sobrevivem apenas aqueles que quebram com as lógicas a que estão condenados. Assinando essa ideia, o filme termina com o mesmo plano com que abre. Mas a violência do passado já deu lugar a uma redenção do novo. Vencedor de 2 prêmios no Festival de Veneza de 2013.
Foram necessários ao menos os últimos 10 anos para que o cinema independente norte-americano finalmente entendesse que tal classificação não constituía um gênero por si só. Nascido como uma resposta ao status quo do sistema de estúdios em todas as décadas desde os anos 50, sempre foi, de fato, uma forma de filmar com pouco dinheiro e uma inventividade que parece nascida da revolta contra a não-representação pelo cinema mainstream, seja na forma ou nos temas. Essa concepção um tanto equivocada, que atingiu o seu auge em produções como "Juno" (2007) e "Pequena Miss Sunshine" (2006), foi construída em parte também por um dos primeiros filmes de David Gordon Green, "Prova de Amor" (All The Real Girls/2003).
Em "Joe", porém, não há espaço para paisagens e corpos em movimento embalados por trilhas de violão acústico. Ele parece retomar um rumo inciado em "Contra Corrente" (Undertow/2004): o trato através de uma estética de Faroeste de personagens brancos pobres, marginalizados, os "white trash" do sul dos EUA. Logo na cena de abertura, vemos o garoto Gary (o consistentemente excelente Tye Sheridan) explicando ao seu pai (o impressionante Gary Poulter, mendigo na vida real, e falecido, escalado para o papel por Green) a conduta errada que este adotou e o quanto ele não vai poder ajudá-lo. Nessa inversão, o tom do menino é paternal e a resposta do pai brutal. Ao garoto só resta seguir a linha do trem, para ele um impulso de vida e, para o pai numa brilhante seqüência posterior, uma compulsão destrutiva. Aqui já vemos o que parece ser o verdadeiro tom central da produção: o embate entre esse decadente mundo patriarcal, perdido em delusões por décadas, e a inevitável realidade para o filho, que necessita de trabalho para sobreviver e ajudar sua mãe e irmã apesar da violência do pai.
Essa possibilidade começa com uma troca de olhares entre Gary e Joe, interpretado por Nicholas Cage, longe de ser um meme e com um vigor e brilhantismo que não víamos desde que foi dirigido por Werner Herzog em "Vício Frenético" (The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans/2009). Essa troca de olhares resume o artifício central: o enxergar o outro e não mais um arquétipo de vida que parece enraizado naquela sociedade. Não à toa, em determinado momento, nos questionamos se Gary é Joe e se Joe é a versão mais velha do menino; ele parece bem menos interessado em salvar a mocinha em perigo, o que é mostrado com primor ao quase sempre estarem de costas um pro outro, do que em atingir a redenção olhando de frente a miséria do garoto.
Se o clímax é um tanto quanto esperamos, sem muitas surpresas, é porque não estamos num Thriller e, sim, num Faroeste. E, como nos grandes exemplares do gênero, "Joe" é uma dança da morte em que os personagens presos nos seus universos sociais morrerão e sobrevivem apenas aqueles que quebram com as lógicas a que estão condenados. Assinando essa ideia, o filme termina com o mesmo plano com que abre. Mas a violência do passado já deu lugar a uma redenção do novo. Vencedor de 2 prêmios no Festival de Veneza de 2013.

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