sábado, 3 de maio de 2014

The Wise Kids (2012)





Avaliação: Ótimo

É comum no discurso que adotamos, mais ainda em tempos de debates acalorados e por vezes rasos em redes sociais, considerarmos a religião do ponto de vista da oposição. Se você pertence a alguma corrente das igrejas evangélicas, então você é um devoto extremo, nunca em dúvida de sua crença em Deus ou dotado de alguma característica que desafie os dogmas dessas religiões, digamos, a homossexualidade. 

O que torna "The Wise Kids", o terceiro longa do roteirista e diretor norte-americano Stephen Cone, fascinante é conseguir englobar esses 3 tipos de tensões num ambiente religioso do sul dos Estados Unidos sem cair na armadilha fácil das oposições. Ao invés, ele constrói fortes personagens, ancorados em ótimas atuações de todo elenco e de uma direção bem segura, ainda que naturalista e pouco arriscada, ao navegar em um terreno repleto de armadilhas.

No filme, acompanhamos os últimos dias da vida paroquial antes que 3 adolescentes partam para as suas faculdades. Brea (Molly Kunz), filha do pastor e de um casamento em crise, começa a duvidar de sua fé em Deus, ao contrário de Laura (a ótima Allison Torem), que acredita fervorosamente nos dogmas religiosos que é ensinada. As duas planejam ir para faculdade juntas, ao contrário de Tim (Tyler Ross, que brilha com um personagem difícil), garoto inteligente e carinhoso e filho de pai viúvo e que experiencia a sua sexualidade pela primeira vez. Todos eles participam da peça dirigida pelo pastor, cuja produção serve de instrumento temporal narrativo.

Aqui, a clássica oposição cinematográfica religião versus materialismo cede lugar a uma exploração humana do que cada um desses personagens anseia e como negociar o desejo e as crenças com um ambiente que não os permite ou repudia, em primeiro momento. Não interessa a ele exaltar na narrativa a falta de crença de Brea ante o fervor religioso de Laura. Ambas as personagens são tratadas com o mesmo cuidado. Da mesma forma, se Laura a princípio não aceita a sexualidade de Tim, isso não significa que vai repudiá-lo, ainda que talvez tente mudá-lo num processo constante de compreensão e mutação. E Tim, por sua vez, não depende de se mudar para um grande centro urbano para ser quem gostaria de ser. O impasse mais difícil talvez seja dos pais de Brea. O pastor e sua esposa já parecem presos ao que deles esperam e encontram no afeto um pelo outro uma saída negociável para as suas vidas.



E, nas belas seqüências finais, Cone consegue brilhantemente expôr todo o anseio, inclusive o sexual, oprimido nos personagens, sem que isso, porém, os defina. Nesse ponto, ele já transcendeu qualquer possibilidade maniqueísta clássica e propôs um tipo diferente de cinema político. Aquele em que o sujeito/personagem em constante processo de mutação negocia todo o tempo sua existência com base em suas crenças e diante do seu meio. E, ainda sim, as escolhas são deles e só deles.

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